MultiGestos Letícia

Exercícios para apraxia de fala na infância com quebra de coarticulação

Por Letícia Silva, CRFa 6-4549
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A criança tenta falar "ao". Sai o "a", vem um intervalo, e só depois aparece o "u". Cada som, separado, ela já consegue fazer. A dificuldade está em juntar os dois.

Esse intervalo tem nome na apraxia de fala na infância, quebra de coarticulação, e tem causa. Os exercícios que trabalham essa quebra partem de um recurso que a fonoaudióloga Letícia Silva usa no consultório, o prolongamento do som: esticar o primeiro som até ele chegar no segundo. No vídeo, ela mostra três jeitos de fazer isso, com quadro branco, espuma de barbear e massinha.

Dois sons ligados por uma faixa esticada com um dedo deslizando sobre ela, representando o prolongamento do som até a coarticulação

O que é a quebra de coarticulação

A quebra de coarticulação é uma das características consistentes da apraxia de fala na infância. É a dificuldade da criança para coarticular, ou seja, para juntar um som com outro, ou uma sílaba com outra. A palavra sai silabada, com um espaço entre as partes.

A causa é a dificuldade de planejamento e programação motora dos sons da fala. O espaço entre um som e outro é o tempo que a criança usa para planejar e programar a segunda parte da palavra.

Por que o prolongamento do som ajuda a juntar os sons

Quando a criança tem quebra de coarticulação, o recurso é o prolongamento do som: lentificar a fala e esticar um som até ele chegar no outro, sempre com pistas que mostram o que a boca precisa fazer. Prolongar não é silabar. Falar "a, u" separado a criança já faz, e esse modelo só repete a quebra. O que ela precisa ouvir e ver é o "a" que não termina antes de o "u" começar.

No começo, o intervalo continua lá, e longo. Para a Letícia, isso já é evolução: antes a criança falava uma vogal, agora fala duas, e ela comemora as duas partes antes de melhorar a junção. O primeiro objetivo é ensinar a criança a prolongar o som, e esse prolongamento é o tempo de que ela precisa para planejar e programar. O intervalo diminui depois, com o trabalho.

A fala esticada é o caminho até a coarticulação, e o passo seguinte leva essa fala para uma prosódia mais adequada. Para a Letícia, promover a junção pelo prolongamento do som é essencial no trabalho com apraxia de fala na infância.

A coarticulação é complexa para uma criança com apraxia de fala na infância, e a resposta depende da gravidade. Numa apraxia severa, a Letícia já teve criança que demorou muito para coarticular, com a estratégia adequada. Nesses casos, a resposta não é tão rápida, e saber o que se está fazendo é o que dá segurança para seguir.

Na apraxia mais leve, a resposta vem, às vezes logo: já houve paciente que, no primeiro dia, ainda na avaliação, coarticulou com uma pista mínima, o dedo da Letícia no ar mostrando o som se esticando e a explicação do que ele tinha que fazer. Quanto de pista cada criança precisa é a resposta dela que vai dizer.

A estratégia adequada também engaja muito mais a criança, e isso pesa: criança que não quer repetir é queixa comum entre fonoaudiólogos, e a repetição é parte do processo, porque a criança precisa de prática repetitiva para adquirir e memorizar uma palavra. Sem emoção não há aprendizagem. Com paciente cansado de tentativas frustradas, às vezes há anos em terapia, o caminho é levar a mesma prática para jogos, circuitos e materiais de que a criança gosta.

Três materiais para esticar o som no consultório

Quadro branco com as pistas do Método MultiGestos® Letícia. A criança escolhe o pincel, e o quadro traz as pistas que mostram o movimento articulatório que a boca precisa fazer: boca aberta para o "a", bico para o "u". A junção só faz sentido com sons que a criança já produz sozinha. Qual junção escolher, e em que momento, é decisão de seleção de palavra-alvo, não de material.

O trabalho é mostrar no quadro, com um traço ligando uma letra à outra, que um som vem se juntando ao outro. A criança passa o dedo no traço enquanto o som se estica, e o fonoaudiólogo descreve para ela o que a boca precisa fazer. Essa descrição é a pista metacognitiva, e ela se soma à pista visual do traço e à pista do gesto. Para a Letícia, pista sozinha é tiro no escuro: a resposta vem quando pelo menos duas entradas chegam juntas.

Pode parecer bobo que mostrar o "juntar" no quadro ajude. Ajuda muito: é assim que a criança entende o que precisa fazer.

A seleção da palavra-alvo vem antes e é outro assunto, tratado no artigo sobre palavras-alvo nos transtornos motores de fala.

No mesmo quadro, a pista da letra ajuda muito, principalmente com a criança no espectro autista com dificuldade de fala que chegou não verbal e agora está na fase da quebra de coarticulação. A pista vale também para a criança não verbal, com outro foco: ali o trabalho fica só no som, ainda sem a coarticulação. Para coarticular, a criança precisa entender que um som se junta ao outro, e a demonstração se repete quantas vezes forem necessárias.

Espuma de barbear, para o controle fonatório. A criança manipula a espuma, a letra vai para a espuma, e o som se prolonga junto com o dedo. A Letícia usa esse recurso já na fase das vogais, pensando na coarticulação, porque o prolongamento depende de algo que costuma passar despercebido: a criança precisa conseguir sustentar um som para ter o que juntar.

No começo, a criança não consegue segurar o "iiii" por muito tempo, porque o controle fonatório dela ainda não é bom, e o trabalho é ir aumentando esse tempo. A Letícia é precisa nesse ponto: a criança não quebra por falta de controle fonatório, ela quebra por planejamento e programação. Mas a estratégia para coarticular é prolongar o som, e sem controle fonatório a estratégia não funciona. Muitas crianças não coarticulam por isso, e é algo pouco falado.

Massinha, para esticar o som junto com ela. A criança brinca com a massinha e, depois, estica a massinha enquanto estica o som: um "aaaaa" longo para o controle fonatório, ou o som prolongado de um até o outro para a coarticulação. É um recurso concreto, e o som alonga junto com a massinha.

As crianças adoram esse material, e isso ajuda a engajar. Os três materiais mudam a brincadeira, não o recurso: é sempre o prolongamento, com pista visual, tátil e metacognitiva ao mesmo tempo. O que não cabe num artigo é a ordem em que cada junção entra na Rota da Fala, quanto tempo de fonação a criança precisa sustentar antes de juntar, e quando reduzir as pistas para a fala voltar à velocidade normal. Esse passo a passo é o que a Letícia ensina no Fala Sem Limites.

O erro de prosódia ao juntar dois sons

Na hora de demonstrar a junção do "a" com o "u", é fácil subir o tom no "u" sem notar, como se o acento caísse nele. Isso altera a prosódia, e a Letícia mostra isso nas próprias aulas, apontando o erro no modelo que ela mesma deu. Toda quebra de coarticulação vem com alteração de prosódia, porque a criança acentua as duas partes. Um modelo com a prosódia alterada até ajuda algumas crianças a coarticular, mas a prosódia da criança fica igual à do modelo. Por isso, quem lentifica e prolonga precisa trazer o modelo correto na sequência, para não contaminar a fala que está sendo construída. Em "ao", o acento fica no "a", e o "u" vem descendo, dentro da mesma sílaba.

Para ver a quebra de coarticulação num caso clínico, ao lado de um caso de atraso motor de fala, leia Atraso motor de fala x apraxia de fala na infância em dois casos clínicos. Os sinais do quadro estão no guia de apraxia de fala na infância.

Perguntas frequentes sobre exercícios para apraxia de fala na infância e coarticulação

O que é quebra de coarticulação na apraxia de fala na infância?

É a dificuldade da criança para juntar um som com outro, ou uma sílaba com outra. A palavra sai silabada, com um espaço entre as partes, e esse espaço é o tempo que a criança usa para planejar e programar a segunda parte. É uma das características consistentes da apraxia de fala na infância.

Por que o prolongamento do som ajuda na coarticulação?

A quebra acontece pela dificuldade de planejamento e programação motora dos sons da fala. Esticando o som até chegar no outro, a criança ganha o tempo de que precisa para planejar e programar, e vai juntando um som ao outro. No começo o intervalo ainda aparece, e o trabalho vai reduzindo esse intervalo.

A criança vai ficar falando esticado?

A fala esticada é o caminho até a coarticulação. Depois, o trabalho leva essa fala para uma prosódia mais adequada.

O prolongamento do som vale para criança não verbal?

Vale, com outro foco. Na criança não verbal, o trabalho fica só no som, ainda sem buscar a coarticulação. Para coarticular, a criança primeiro precisa entender que um som se junta ao outro.

Qual é o erro mais comum ao ensinar a juntar dois sons?

Subir o tom no segundo som sem notar, como num "a" seguido de um "u" mais agudo, acentuando as duas partes. Isso altera a prosódia, e a criança copia a prosódia do modelo. Prolongar não é silabar: o acento fica no "a" e o "u" vem descendo, dentro da mesma sílaba.

Que materiais ajudam a treinar a coarticulação no consultório?

Quadro branco com as pistas que mostram o movimento articulatório, espuma de barbear para o controle fonatório e massinha para esticar o som junto com o material. Os três servem ao mesmo recurso, o prolongamento do som, e variam a atividade num treino que pede repetição.

Na quebra de coarticulação, a criança fala "a", para, e só depois vem o "u". Esse intervalo é o tempo que ela usa para planejar e programar a segunda parte da palavra. O prolongamento do som oferece esse tempo de outro jeito, com o "a" esticado até chegar no "u", e o trabalho segue reduzindo o intervalo até a coarticulação.

Método MultiGestos® Letícia

Fala Sem Limites

Letícia Silva é fonoaudióloga (CRFa 6-4549) e psicopedagoga, criadora do Método MultiGestos® Letícia. Atua na clínica há mais de 20 anos e tem + de 10 mil alunos (fonos, professores e mães). No Fala Sem Limites, curso exclusivo para a área da fonoaudiologia, o fonoaudiólogo passa a mapear os próprios casos, identificando em que estágio o paciente está, e começa a traçar as estratégias de intervenção.

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Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação fonoaudiológica presencial.

Publicado em 26 de setembro de 2026. Atualizado em 02 de outubro de 2026.