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Transtorno fonológico x transtorno motor de fala

Por Letícia Silva, CRFa 6-4549
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A criança com transtorno fonológico troca ou omite sons na fala. A criança com transtorno motor de fala (TMF) também pode trocar sons. É aí que mora a confusão, e ela pode ser o motivo de um paciente não evoluir.

O que separa os dois quadros está em volta da troca: na vogal, no movimento da boca, no jeito como a criança junta um som com o outro.

Cabeça de perfil com rede de pontos ao lado de uma boca com engrenagens, representando a diferença entre transtorno fonológico e transtorno motor de fala

O que é transtorno fonológico

Transtorno fonológico é o quadro em que a criança tem trocas nos sons da fala: omite algum som ou substitui um som por outro. É o velho conhecido da clínica fonoaudiológica e o caso mais frequente no consultório, a maior parte do que o fonoaudiólogo atende.

Para esse quadro, a clínica tem ferramentas claras. A intervenção segue a instalação de fonema, a partir do som que a criança ainda não tem.

No transtorno fonológico tradicional, não se espera que a criança tenha dificuldade em vogal.

O que é transtorno motor de fala (TMF)

Transtorno motor de fala, ou TMF, é o nome que reúne quatro subtipos: apraxia de fala na infância, atraso motor de fala, disartria e a associação entre disartria e apraxia de fala na infância. Nesses quadros, a criança tem dificuldade em planejar e programar o movimento da fala, ou em controlar esse movimento.

De alguns anos para cá, os transtornos motores de fala passaram a ser mais conhecidos. Por isso o fonoaudiólogo não pode ficar preso ao raciocínio aprendido na faculdade, em que dificuldade de fala se pensava pelo transtorno fonológico. Hoje o raciocínio clínico precisa ser mais amplo.

Por que confundir os dois trava a evolução do paciente

Uma fonoaudióloga escreveu para a fonoaudióloga Letícia Silva contando o caso de um paciente que ela atendia do jeito que se aprende na faculdade: escolher o fonema que a criança não tem e instalar esse fonema.

A criança tinha aprendido o "pá". Pelo raciocínio do transtorno fonológico, o passo seguinte é a família silábica: pá, pé, pi, pó, pu. Ela fazia quase todas as sílabas e travava em uma, o "pi". Foram seis meses de intervenção tentando essa sílaba, e ela não saía.

A Letícia foi direta: o raciocínio estava errado para aquele paciente.

No transtorno motor de fala, a dificuldade não é o som que falta, é a coarticulação, juntar o som que a criança já tem com cada vogal. Para essa criança, uma sílaba com movimento de boca parecido com o que ela já faz é mais fácil do que a sílaba que não sai. Insistir meses na sílaba que não sai gasta a energia da criança com o que ela não tem, e um paciente nessa situação começa a perder o interesse pela intervenção.

Esse caso mostra o raciocínio que separa os quadros. No transtorno fonológico, a criança que aprendeu a fazer o /s/ faz o /s/ com qualquer vogal. Quando o som sai com algumas vogais e não sai com outras, a habilidade em falha é a coarticulação, e isso liga o sinal de alerta para transtorno motor de fala.

A associação entre os dois quadros é muito comum. O maior desafio mora em outro ponto: não identificar o transtorno motor de fala e tratar o caso só como fonológico. Por isso, paciente com dificuldade em instalação de fonema já liga o sinal de alerta.

Os sinais que separam os dois quadros

A troca aparece nos dois quadros. O paciente com transtorno motor de fala reúne, além dela, muito mais características e erros associados à fala, e são eles que pedem investigação.

Vogal. O português tem sete vogais orais: a, é, ê, i, ó, ô, u. Quando a clínica pensava só em transtorno fonológico, avaliar vogal não era hábito, porque essas crianças não tinham dificuldade nelas. Avaliar vogal é um raciocínio novo no consultório, que chegou com os transtornos motores de fala.

A dificuldade aparece de duas formas: a criança não consegue produzir alguma das sete vogais quando a vogal é pedida sozinha, ou troca a vogal dentro da palavra. Era para falar "cocô" e saiu "cacá". Parece troca boba, e é esse tipo de troca que a Letícia mostra em aula como erro que não acontece no transtorno fonológico: ali a criança troca consoante, não vogal.

Por isso a vogal entra na avaliação como item próprio, e não como detalhe da palavra. A Letícia dá o modelo das sete vogais e observa o que a criança produz sem nenhuma ajuda. Só depois de entender o que ela dá conta sozinha é que entram as pistas: um gesto, a boca de quem avalia, uma imagem do movimento. A ordem importa, porque a resposta às pistas multissensoriais é a última etapa da avaliação e já antecipa o caminho da intervenção: a criança com transtorno motor de fala tende a melhorar com esse tipo de pista. A avaliação de rastreamento que organiza esses itens, na ordem e com o registro que ela usa no consultório, é material do Fala Sem Limites.

Coarticulação. O som sai com algumas vogais e não sai com outras, como no caso da família silábica contado acima.

Repertório restrito. O paciente chega usando a mesma sílaba para tudo: mostra o cachorro, o gato, o elefante, e sai "ma" para cada um. Num caso assim, a Letícia primeiro separa o que é vocabulário do que é fala, pedindo que a criança pegue o elefante e o cachorro. Se ela reconhece os bichos e ainda assim repete o mesmo som, o problema está na fala. Repertório muito restrito de vogais e de consoantes é sinal motor: a criança repete a consoante que tem porque não tem outras, e isso não acontece no transtorno fonológico.

Tateio articulatório. A criança fica buscando o que fazer com a boca para falar, mexe a língua, hesita. É um sinal de alerta forte para transtorno motor de fala.

Mandíbula e lábio. Durante a fala, a mandíbula faz desvios e fica meio solta, se movimentando. O lábio também pode mostrar pouco controle, com compensações sutis. Pouco controle de mandíbula, de lábio ou de língua, e muitas distorções de sons, estão muito relacionados ao controle motor da fala e, mais especificamente, ao atraso motor de fala.

Inconsistência. Erros inconsistentes tendem a aparecer nos transtornos motores de fala; no transtorno fonológico, a tendência é a troca ser a mesma, e o fonológico inconsistente existe, mas é bem menos frequente. Para fechar apraxia de fala na infância, a inconsistência é obrigatória: a Letícia só fecha esse diagnóstico com três características juntas, quebra de coarticulação, alteração de prosódia e erros inconsistentes. No atraso motor de fala ela aparece pouco. A mesma criança falou "luz" de três ou quatro formas diferentes numa única nomeação: cada vez o cérebro planeja e programa de um jeito, porque não sabe o que fazer.

Extensão da palavra. A criança com transtorno motor de fala tende a ter dificuldade para falar todas as partes de uma palavra grande. O que se observa é a sequência inteira, não o acerto de cada som. A criança com transtorno fonológico fala "elefante" errado, "epefante", "equetante", e fala todas as partes. A criança com transtorno motor fala "ti", "a", "tu": às vezes uma sílaba só da palavra. Cair de qualidade quando a palavra cresce, e dar conta do dissílabo mas não do trissílabo, é característica motora.

Qualidade da palavra e prosódia. Depois da extensão, entra a qualidade. "Elefante" falado silabado, com quebra de coarticulação marcada, aponta mais para apraxia de fala na infância: toda quebra altera a prosódia, e a quebra em monossílabo é muito da apraxia. No atraso motor de fala não há quebra; o que aparece é distorção, imprecisão, e uma alteração de prosódia bem menos marcada. Na disartria a prosódia também sofre, junto com respiração, fonação e ressonância. E uma criança pode dar conta de um polissílabo e falar tudo quebrado, "co", "co", acentuando cada sílaba: ela chegou à palavra grande sem nunca ter trabalhado a coarticulação, e é isso que precisa ser visto.

Baba que escorre. Pode indicar uma musculatura que não segura bem a saliva, e coloca a disartria no radar da investigação.

Como avaliar: imitação, nomeação e vídeo

A fala espontânea, sozinha, não basta. Tanto a criança com transtorno motor de fala quanto a criança com transtorno fonológico podem ter fala ininteligível, e fala ininteligível não sustenta diagnóstico diferencial. As características aparecem quando a avaliação inclui imitação de fala e nomeação.

Consistência não aparece numa lista de palavras diferentes. Se a criança fala "bola", "sapo" e "caneta", uma vez cada, ninguém sabe se ela é inconsistente. Só dá para saber quando a mesma palavra é pedida de novo, e de novo, e volta em outro momento da sessão, em palavras de tamanhos diferentes, do monossílabo ao polissílabo. É nesse ir e voltar que se vê se o erro muda a cada tentativa. Quantas repetições, quais palavras e como registrar o que saiu em cada uma é parte da avaliação de rastreamento que a Letícia ensina no Fala Sem Limites.

Parte dos sinais motores é sutil demais para pegar durante a sessão. A Letícia descreve o que acontece quando ela revê a filmagem de uma avaliação: vai, volta, vai de novo, e aí aparece o desvio de mandíbula, o lábio esquisito, um lábio que sobe mais do que o outro, uma movimentação exagerada para compensar o que a boca não controla. São características motoras, e muitas vezes elas convivem com trocas que, de ouvido, parecem só fonológicas.

Junto da criança, com tanta informação acontecendo ao mesmo tempo, esse desvio escapa; na filmagem, aparece. Por isso a avaliação motora pede filmagem, e o celular apoiado, gravando, dá conta. A Letícia filma a avaliação de rastreamento e orienta o fonoaudiólogo a fazer o mesmo com o equipamento que tiver.

O áudio tem outra função: mostrar a extensão da palavra que a criança dá conta e o ponto em que a palavra quebra. No curso, a Letícia treina a escuta dos alunos só com áudio de paciente, de propósito: sem a imagem, ninguém se distrai com a criança subindo na mesa, e o ouvido fica livre para pegar o nível de extensão em que a fala cai.

Como muda a intervenção

Para o transtorno fonológico, o caminho é a instalação de fonema. Para um caso com características de transtorno motor de fala, a intervenção é totalmente diferente: ela se apoia em princípios de aprendizagem motora da fala, com pistas multissensoriais, feedback e palavras-alvo escolhidas a partir dos sons que a criança já tem no repertório.

Nesses casos, focar na instalação do fonema que a criança não tem faz a intervenção perder o fio da meada, porque o transtorno motor de fala fica sem intervenção.

Quando o transtorno motor de fala vem associado a um transtorno fonológico, a prioridade é o transtorno motor: primeiro a criança evolui em extensão da palavra e amplia o repertório, depois se trabalha a troca. As palavras-alvo saem dos fonemas que a criança já produz, e a seleção é o oposto da que se faz no transtorno fonológico. Como escolher essas palavras, em que ordem avançar da vogal ao polissílabo e quando um som novo entra no caminho é o que a Letícia ensina, etapa por etapa, no Fala Sem Limites.

Para aprofundar, leia também os artigos sobre transtorno motor de fala e instalação de fonemas.

Perguntas frequentes sobre transtorno fonológico x transtorno motor de fala

Transtorno fonológico tem cura?

O transtorno fonológico é o quadro que a clínica fonoaudiológica mais conhece, e a intervenção nele tem ferramentas claras. Sem intervenção adequada ao quadro, o paciente não evolui. O maior desafio aparece quando existe um transtorno motor de fala associado que não foi identificado: tratado só como fonológico, esse caso pode parar de evoluir, porque a instalação de fonema deixa o transtorno motor sem intervenção. Este artigo não faz previsão de resultado nem de prazo: cada caso depende de avaliação fonoaudiológica presencial.

Transtorno fonológico como tratar?

Quando é só transtorno fonológico, a intervenção segue a instalação de fonema, a partir do som que falta no repertório da criança. Quando há um transtorno motor de fala associado, a prioridade passa a ser o transtorno motor: a intervenção se apoia em princípios de aprendizagem motora da fala, com pistas multissensoriais, feedback e palavras-alvo escolhidas a partir dos sons que a criança já produz. Por isso, entender quem é o paciente vem antes de escolher o caminho.

O que é TMF na fonoaudiologia?

TMF é a sigla de transtorno motor de fala. O termo reúne quatro subtipos: apraxia de fala na infância, atraso motor de fala, disartria e a associação entre disartria e apraxia de fala na infância. Nesses quadros, a criança tem dificuldade em planejar e programar o movimento da fala, ou em controlar esse movimento. O TMF pode aparecer associado a um transtorno fonológico, e essa associação é muito comum.

Qual a diferença entre transtorno fonológico e transtorno motor de fala?

A troca de sons aparece nos dois. No transtorno fonológico, a criança omite ou substitui sons, não se espera dificuldade em vogal, e o som aprendido sai com qualquer vogal. No transtorno motor de fala, a troca vem acompanhada de outros sinais: erro em vogal, som que sai com algumas vogais e não com outras, repertório de sons muito restrito, tateio articulatório, desvio de mandíbula ou pouco controle de lábio, inconsistência e dificuldade na extensão da palavra.

Erro em vogal é sinal de transtorno fonológico ou de transtorno motor de fala?

Aponta para transtorno motor de fala. No transtorno fonológico tradicional, não se espera que a criança tenha dificuldade em vogal. No transtorno motor de fala, a dificuldade pode aparecer de duas formas: a criança não consegue produzir alguma das sete vogais orais, ou troca a vogal dentro da palavra, como "bola" que sai "bala".

Antes de decidir se a intervenção começa pela vogal ou pelo monossílabo, e antes de escolher qualquer método, vem o primeiro passo: entender quem é o paciente, se as trocas são de um transtorno fonológico ou se existe um transtorno motor de fala por trás delas.

A troca pode ser a mesma nos dois quadros. A intervenção é totalmente diferente.

Método MultiGestos® Letícia

Fala Sem Limites

Letícia Silva é fonoaudióloga (CRFa 6-4549) e psicopedagoga, criadora do Método MultiGestos® Letícia, atua há mais de 20 anos e tem + de 10 mil alunos (fonos, professores e mães). No Fala Sem Limites, curso exclusivo para fonoaudiólogos e estudantes de fonoaudiologia, ela ensina a revisar e validar diagnósticos de fala e a intervir nos transtornos motores de fala.

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Este artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação fonoaudiológica presencial.

Publicado em 26 de setembro de 2026. Atualizado em 02 de outubro de 2026.